quarta-feira, 1 de setembro de 2010

Revista Galileu reporta os 'Arquivos X' brasileiros

Por Guilherme Rosa

Edição da publicação traz matéria que retrata alguns casos disponibilizados no Arquivo Nacional. O conteúdo foi fechado pouco antes da liberação dos arquivos dos anos 90
 
Na década de 60, o major Gilberto Zani de Mello tinha preocupações um pouco diferentes de seus companheiros militares. Enquanto os colegas de farda perseguiam comunistas e estudantes em passeatas, Zani ia atrás de extraterrestres. No dia 19 de setembro de 1968, o major se dirigiu para a cidade de Lins, no interior de São Paulo, para fazer um interrogatório bem diferente daqueles que aconteciam nas prisões da ditadura militar que governou o Brasil entre 1964 e 1985. Munido de papel e caneta, Zani foi incumbido de conversar com a faxineira Maria José Cintra, 49 anos, que trabalhava em um sanatório isolado do resto da cidade. Ela não estava acobertando nenhum estudante subversivo.
A senhora, na verdade, contava uma história esquisita que teria acontecido no fim da madrugada do dia 25 de agosto daquele ano. Pela janela do seu quarto, Maria José enxergou uma mulher coberta por uma longa capa e um capuz, que deixava apenas metade de seu rosto aparecendo. Pensando se tratar de uma paciente, desceu para atendê-la. Mas a resposta veio em uma língua incompreensível. Como a mulher segurava uma garrafa, Maria lhe deu um pouco de água. O agradecimento foi algo como: “Imbaúra, imbaúra, imbaúra”, reproduziu a faxineira diante do major. Num pulo, a visitante se afastou. Foi quando Maria José percebeu que uma imensa nave em forma de disco flutuava a um metro do chão, no pátio do sanatório. Ouviu, então, um barulho suave, como pneus no cascalho e a nave disparou para o céu. Durante a investigação, Zani fotografou o local apontado pela faxineira e constatou que o objeto havia deixado marcas na grama.
Esse foi só mais um caso de objetos voadores não identificados, apurados e engavetados pelos militares junto com as histórias apavorantes de tortura. Na verdade, foram os únicos documentos realmente liberados para o público até hoje. Centenas de relatos ufológicos em poder do governo começam a vir à tona depois de décadas de sigilo, a pedido da Comissão Brasileira de Ufologia (CBU), entidade que reúne profissionais de diversas áreas para estudar os UFOs. “Precisávamos ter acesso a esses documentos e lançamos a campanha UFOs: Liberdade de Informação Já, diz Ademar José Gevaerd, membro da CBU e editor da Revista UFO, especializada no assunto. A entidade fez um abaixo-assinado com mais de 70 mil assinaturas, mostrando que muito mais gente no país leva os extraterrestres a sério. A partir de 2007, o governo começou a enviar os tais documentos ao Arquivo Nacional, em Brasília. Começaram pelos anos 50, depois 60 e 70. No começo deste ano, a década de 80 foi liberada. Já são quase 4.000 páginas disponíveis para consulta pública.
A verdade está lá fora - As centenas de fotos, transcrições de conversas, desenhos, pinturas e imagens de radares são a prova de que os militares realmente se preocuparam com a existência de discos voadores rondando o céu brasileiro. Principalmente a Aeronáutica, para quem objetos não identificados sobrevoando nosso território eram uma questão de segurança nacional. “A maioria desses fenômenos tem explicação, mas os 3% que não têm merecem ser investigados, para a segurança de nosso espaço aéreo”, afirma Antônio Celente, coronel da reserva da Aeronáutica. O interesse era tamanho que, na época, a Força Aérea Brasileira (FAB) instituiu o Sistema de Investigação de Objetos Aéreos Não Identificados (Sioani) só para ir atrás dos antepassados do ET de Varginha (esse documento, aliás, ainda não foi liberado, mas é ansiosamente aguardado pelos estudiosos). A missão do órgão era investigar os casos de avistamento de UFOs no Brasil, sem fazer alarde, e acabou por assinar mais de cem dos relatórios que já estão à disposição pública. Trata-se de uma sucessão de relatos e desenhos feitos pelos militares, espécies de retratos falados das naves que ousaram passear sobre os nossos céus.
Ironicamente, o primeiro caso descrito nos documentos liberados e investigados pela FAB era uma farsa. O caso Barra da Tijuca aconteceu em 1952, quando jornalistas da revista O Cruzeiro fotografaram um disco voador sobre a praia carioca. Entre os arquivos, há um que comprova que as sombras no disco voador não coincidem com a direção do Sol. Na verdade, o disco era um aeromodelo e não representava nenhuma ameaça.

Mas nem sempre os casos eram tão inofensivos, dizem os arquivos. A Operação Prato, por exemplo, gerou tanto medo que até o temido Serviço Nacional de Informações (SNI), órgão de espionagem da ditadura militar, deixou os subversivos de lado para investigar o caso. No ano de 1977, a região de Salgado, no nordeste do Pará, foi infestada por estranhos objetos voadores. A população da região estava apavorada, diziam que os objetos emitiam uma luz intensa, que queimava e tirava as energias de quem fosse atingido por ela. Foi quando o governo local pediu ajuda às forças armadas. “O medo deles era de que aquilo fosse alguma conspiração terrorista”, diz Gevaerd. Os militares passaram semanas no meio do mato, onde entrevistaram dezenas de vítimas e depois produziram extensos relatórios. E aí, segundo os próprios documentos, eles mesmos começaram a ver as tais luzes, que pareciam espioná-los. “Criavam intimidade, ficavam mais fortes com o passar do tempo, seguiam os acampamentos”, afirma Gevaerd, que entrevistou o coronel que liderou a operação. Não consta entre os documentos como a operação terminou.

Reconhecimento oficial - Nos anos 80, houve um caso ainda mais ameaçador e que exigiu uma resposta rápida da Aeronáutica. A Noite Oficial dos UFOs aconteceu em 19 de maio de 1986, quando uma torre de controle do aeroporto de São José dos Campos (SP) notou algumas luzes pairando sobre a cidade, que variavam entre vermelho, amarelo e verde. Depois de algum tempo, elas começaram a aparecer em outros radares da região. A  Aeronáutica acionou sete aviões do tipo caça para investigá-las. “Foi algo muito incomum: 21 objetos não identificados sobrevoando os aeroportos. Os caças saíram em busca deles, armados, numa das maiores operações aeronáuticas dos anos 80”, diz Gevaerd.

Na manhã seguinte, o então brigadeiro Otávio Júlio Moreira Lima prometeu um documento sobre o ocorrido e disse que iria divulgá-lo para a imprensa em 30 dias. Os jornalistas esperaram até setembro de 2009 quando, enfim, o relatório veio a público. Ele dizia que “os fenômenos são sólidos e refletem certa forma de inteligência, pela capacidade de acompanhar e manter distância dos observadores, como também voar em formação”. Segundo o ufólogo Fernando Ramalho, atual presidente da CBU, isso é quase uma confissão. “Os objetos venceram nossos caças, que eram dos mais avançados na época. Isso é uma declaração de que tivemos nosso espaço aéreo invadido por seres inteligentes”, diz. A próxima leva de papéis a ser liberada está marcada para o início de setembro, com as décadas de 90 e 2000. Devem conter o caso do famoso ET de Varginha. “Estamos preparados para voltar à briga. Temos informes de que foram produzidos muitos mais documentos, inclusive 16 horas de vídeos, que nunca apareceram”, diz Ramalho.

Essa tramitação é complicada porque, apesar do acesso a documentos públicos ser um direito garantido pela Constituição, não temos uma legislação que o regulamente, segundo Guilherme Canela, coordenador da Unesco no Brasil, o órgão da Organização das Nações Unidas (ONU) para a cultura e educação. “Existe uma pressão para recuperar informações do passado, desde ufólogos até movimentos defensores dos desaparecidos na ditadura”, diz. No ano passado, o governo enviou ao Congresso Nacional um projeto de lei de acesso à informação que já foi aprovado pela Câmara e que está em discussão no Senado. A esperança é que os ufólogos possam se basear nessa lei para seus futuros pedidos. Afinal, o universo está cheio de mistérios que se escondem nas gavetas dos governantes ou nos espreitam entre as galáxias.
 
Portal da Ufologia Brasileira

Agradecimentos a: 
Paulo R. Poian.
Consultor da Revista UFO Brasil

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