sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Fernando Pessoa político

Adelto Gonçalves (*)
I
Não é tudo o que um mestre escreveu que merece a definição de obra de arte. E, claro, muitas produções que fazem parte da obra desse mestre só são ressuscitadas porque, em função de outros textos, tudo o que escreveu passa a despertar o interesse dos estudiosos e dos leitores. É o caso de poema “Em memória do Presidente-Rei Sidónio Pais”, de Fernando Pessoa (1888-1935), que acaba de ganhar uma nova versão em italiano, Alla memoria del Presidente-Re Sidónio Pais (Perúgia, Itália, Edizioni dell´Urogallo, 2010), em tradução do professor Brunello De Cusatis, autor também de um ensaio-introdução. 

O poema ganha importância exatamente para quem tem interesse em conhecer os matizes do pensamento político de Fernando Pessoa, que nunca teve nada de esquerdista; pelo contrário. Era um antidemocrata por definição, adepto de uma “monarquia pura”, como observa De Cusatis, tirando a expressão de um artigo do próprio poeta, “A opinião pública”.
Essa monarquia, porém, seria um tanto inusitada, pois baseada na opinião pública, quem sabe um sistema de governo que representasse a continuidade histórica interrompida com a morte do rei D. Sebastião (1554-1578), na batalha de Alcácer Quibir, na África, contra as tropas do rei de Marrocos.
Como se sabe, em 1580, com a morte do cardeal-rei D. Henrique, sem que tivesse sido designado um sucessor, Filipe II de Espanha, neto do rei português D. Manuel I, invadiu Portugal e submeteu o país a 60 anos de domínio, tornando-o uma província espanhola, tal como havia ocorrido com a Galiza, que continuou fazendo parte do reino asturiano-leonês. Como é natural, os portugueses viviam descontentes e compreendiam que só uma revolução bem organizada lhes poderia trazer a libertação.
Dessa maneira, a 1º de dezembro de 1640, um grupo de 40 fidalgos dirigiu-se ao Paço da Ribeira onde estavam a duquesa de Mântua, regente de Portugal, e o seu secretário, Miguel de Vasconcelos. A duquesa foi detida e o secretário assassinado. Foi assim que Portugal recuperou a sua independência, sendo D. João IV, duque de Bragança, aclamado rei, com o cognome de O Restaurador. Sem incorrer em anacronismo, pode-se imaginar que essa monarquia nascia de um consenso entre os líderes representativos da nova nação. 

Esse ciclo monárquico durou até 1910, quando D. Manuel foi apeado do poder, dois anos depois de ter assumido a coroa em razão do assassinato a tiros, no Terreiro do Paço, do rei D. Carlos e seu herdeiro. A república que nasceu do golpe não teve condições de manter um governo estável. Em meio a muita instabilidade, Sidónio Bernardino Cardoso da Silva Pais (1872-1918), militar e político, assumiu, em dezembro de 1917, a presidência da República, suspendendo e alterando de forma ditatorial normas essenciais da Constituição de 1911, razão pela qual ficou conhecido com o Presidente-Rei. Foi um governo de grande instabilidade que culminou, a 14 de dezembro de 1918, com o assassinato de Sidónio País, em Lisboa, no momento em que partia para o Porto, na estação do Rossio. 

II
Tipo messiânico e caricato, mas que não diferia muito dos líderes portugueses – e mesmo europeus – do seu tempo, Sidónio Pais, direitista, não merece mais do que algumas poucas linhas em qualquer livro de história de Portugal. E só tem o seu nome ressuscitado num título de livro hoje porque um poeta da grandeza de Pessoa perdeu seu tempo e talento em reverenciar sua memória.
De qualquer modo, ao manifestar sua admiração por um chefe carismático, Fernando Pessoa estava antenado com as tendências predominantes em seu tempo – as outras tendências estavam à esquerda: anarquismo e comunismo. Por isso, não se pode imaginá-lo um democrata. Seria, isso sim, um antidemocrata pagão, como o definiu Ruy Miguel, ao dar esse título à coletânea em que reuniu textos pessoanos sobre política e doutrina estética (Lisboa, Nova Arrancada, 1999), ou, como ele mesmo se autodefiniu em Páginas de Doutrina Estética, “um nacionalista místico, um sebastianista racional”.
Foi o que o levou a imaginar Sidónio Pais como um novo Desejado, um D. Sebastião, que viria numa manhã de nevoeiro para libertar Portugal e levá-lo ao seu grande destino. É de lembrar que Sidónio Pais pertencia a um grupo de direita que, em fins de 1917, opunha-se à participação de Portugal na I Grande Guerra. Um decreto ditatorial modificou a forma de eleição do chefe do Estado e Sidónio Pais foi eleito presidente da República pelo sufrágio universal e direto, o que constituiu a primeira experiência presidencialista em Portugal, que, no fim das contas, durou pouco. Seu assassinato causaria uma comoção semelhante à que se daria no Brasil em 1954, com o suicídio do presidente e ex-ditador Getúlio Vargas. Como se sabe, a morte repentina e em condições trágicas sempre contribui para a “canonização” da vítima. 
Alma sensível, Fernando Pessoa, aparentemente, fez essa defesa de um governo forte baseado na opinião pública levado por essa comoção popular que sentia ao andar pelas ruas da Baixa e do Bairro Alto em Lisboa. Mas não se pode dizer com todas as letras que tenha sido fascista. O que defendia era uma monarquia ideal baseada na opinião pública que, para ele, aliás, não passava de uma “superstição verbal”. Por isso, imaginou que Sidónio Pais poderia ter sido esse rei escolhido pelo voto popular. 

(...) E, porque foste, confiando
Em QUEM SERÁ porque tu foste,
Ergamos a alma, e com o infando
Sorrindo arroste,
Até que Deus o laço solte
Que prende à terra a asa que somos
E a curva novamente volte
Ao que já fomos,
E no ar de bruma que estremece
(Clarim longínquo matinal!)
O DESEJADO enfim regresse
A Portugal!
Para se entender este poema, o ideal é que o leitor tenha à mão também os textos de Páginas de Doutrina Estética, que vieram à luz em 1947, e de O Interregno – Doutrina e Justificação da Ditadura Militar em Portugal. Talvez possa concluir que o poeta como pensador político tenha sido contraditório ou ingênuo. Mas, antes de chegar a essa conclusão, deve levar em conta que não é a forma que define um bom governo, mas o seu caráter. Uma república com parlamento aberto pode ser tão opressora, despótica e corrupta quanto uma monarquia absolutista como aquelas que ainda hoje existem no Oriente Médio. Exemplos não faltam.
III
Brunello De Cusatis é professor associado e responsável pela cátedra de Literatura Portuguesa e Brasileira e de Língua Portuguesa e Brasileira da Faculdade de Letras e Filosofia da Universidade Perúgia, Itália. Além de publicar numerosos artigos em jornais e revistas especializadas, preparou a tradução para o italiano de várias antologias de escritores lusófonos, como os angolanos José Eduardo Agualusa e João Melo, o português Mário Claúdio e os brasileiros José Clemente Pozenato e Sérgio Faraco, todos publicados por Morlacchi Editore, de Perúgia.
Em relação a Fernando Pessoa, organizou o volume Scritti di Sociologia e Teoria Política (Roma, Settimo Sigillo, 1994), Politica e Profezia. Appunti e Frammenti 1910-1935 (Roma, Antonio Pellicani, 1996) e Economia & Comercio. Impresa, monopolio, libertà (Roma, Ideazione, 2000). 

De Cusatis é ainda autor da monografia O Portugal de Seiscentos na “Viagem de Pádua a Lisboa”, de Domenico Laffi. Estudo Crítico (Lisboa, Editorial Presença, 1998), Tra Italia e Portogallo. Studdi storico-culturali e letterari (Roma, Antonio Pellicani, 1999), e Esoterismo, Mitogenia e Realismo Político em Fernando Pessoa (Porto, Edições Caixotim, 2005). 

FERNANDO PESSOA: ALLA MEMORIA DEL PRESIDENTE-RE SIDÓNIO PAIS , com tradução e ensaio-introdução de Brunello De Cusatis. Perúgia, Itália: Edizioni dell´Urogallo, 56 págs., 11 euros. Site: www.urogallo.eu 

(*) Adelto Gonçalves é doutor em Literatura Portuguesa pela Universidade de São Paulo e autor de Gonzaga, um Poeta do Iluminismo (Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1999), Barcelona Brasileira (Lisboa, Nova Arrancada, 1999; São Paulo, Publisher Brasil, 2002) e Bocage – o Perfil Perdido (Lisboa, Caminho, 2003). E-mail: marilizadelto@uol.com.br 
 
Fonte: Pravda.ru

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