segunda-feira, 28 de março de 2011

A Líbia e os Muçulmanos

Árabes residentes no Brasil, principalmente muçulmanos, têm sofrido constrangimentos e humilhações, em decorrência de episódios que estão ocorrendo na Líbia.

Nenhuma justificativa existe para que árabes em geral sofram represálias e muito menos que sejam atingidos árabes, muçulmanos ou não, residentes no Brasil.

Isto me lembra humilhações que minha própria família, de origem germânica, sofreu, durante a Segunda Guerra Mundial. Éramos alemães ou descendentes de alemães, já de muito incorporados à vida e à luta do povo brasileiro, mas o preconceito e o ódio atingiram injustamente meus familiares e outros imigrantes alemães e italianos.

Com os muçulmanos está agora acontecendo o mesmo. Imigrantes que já vivem no Brasil, alguns há muito tempo, inclusive com filhos brasileiros, são vítimas da insânia e da desinformação.

Não há a minima racionalidade nessa atitude, como não existe qualquer motivo para discriminações contra os muçulmanos.

O Islamismo ensina que o homem é "vigário (representante) de Deus", conforme se lê no Corão.

Observa Jean-François Collange, um especialista em estudos sobre religiões, que a igualdade, a dignidade e a liberdade inerentes a todos os seres não podem ser contestadas por qualquer instância humana, segundo o ensinamento islâmico.

O Islamismo prescreve a fraternidade, adota a ideia da universalidade do gênero humano e de sua origem comum; ensina a solidariedade para com os órfãos, os pobres, os viajantes, os mendigos, os homens fracos, as mulheres e as crianças; define a supremacia da Justiça acima de quaisquer considerações; prega a libertação dos escravos; proclama a liberdade religiosa e o direito à educação; condena a opressão e estatui o direito de rebelar-se contra ela; estabelece a inviolabilidade da casa.

Há uma semelhança estreita entre a visão islâmica do ser humano (homem, vigário de Deus), a ideia cristã ensinada por Paulo Apóstolo (homem, templo de Deus) e a ideia de homem como imagem de Deus (Gênesis, livro sagrado de judeus e cristãos).

Mohammed Ferjani, outro brilhante autor, nega que o Islamismo seja uma Religião obtusa, que impeça seus fiéis de ingressar na Modernidade. Mostra como é preconceituosa a tese de que caiba ao Ocidente a missão civilizatória.

Participei, durante período de pós-doutoramento na França, do Segundo Colóquio Internacional Islâmico-Cristão. Foi uma das mais belas experiências que a vida me proporcionou.

Nessa ocasião, pude partilhar com crentes muçulmanos um projeto de mundo baseado na liberdade, na solidariedade e na Justiça. Não se tratou apenas de um intercâmbio intelectual mas de algo muito mais profundo, radicado no afeto, na compreensão recíproca, na comunhão.

A meu ver, esse mundo que, naqueles três dias, centenas de homens e mulheres de boa vontade supuseram possível construir, a partir do respeito mútuo e do diálogo, está bem próximo da utopia humanista redentora do mundo.


João Baptista Herkenhoff é escritor e membro emérito da “Comissão de Justiça e Paz” da Arquidiocese de Vitória. Autor do livro Direitos Humanos – a construção universal de uma utopia (Editora Santuário, Aparecida, SP).
E-mail: jbherkenhoff@uol.com.br
Homepage: www.jbherkenhoff.com.br

É livre a divulgação deste texto, por qualquer meio ou veículo.

Seja o primeiro a comentar!

Postar um comentário

Não serão aceitos comentários Anônimos (as)
Comentar somente sobre o assunto
Não faça publicidade (Spam)
Respeitar as opiniões
Palavras de baixo calão nem pense
Comentários sem Perfil não será publicado
Quer Parceria não será por aqui.(Contato no Blog)

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...

Link - me



Software do Dia: Completo e Grátis

Giveaway of the Day

Suas Férias

PageRank

  ©LAMBARITÁLIA - Todos os direitos reservados.

Template by Dicas Blogger | Topo